QUEREMOS ROMPER O CICLO GENOCIDA!

No Brasil, a gente costuma não utilizar com muita frequência a designação “genocídio” para o assassinato de opositores políticos durante o período da ditadura militar (1964 a 1985). Vemos o termo sendo muito mais utilizado em relação aos repressores argentinos, que estão efetivamente sendo condenados na Justiça por crimes contra a humanidade. Há um debate aberto muito extenso e aprofundado sobre esse tema no país vizinho, mas há um grande consenso, especialmente entre os organismos de direitos humanos, de que o que houve na Argentina entre 1976-1983 foi um genocídio planejado e executado por membros das forças de segurança. Fica mais compreensível quando entendemos a existência de metodologias de morte em série, campos de concentração, fuzilamentos em massa, entre outras coisas. Mas e no Brasil, como os crimes da ditadura são entendidos?

É nítido que o aparato repressivo montado pelos militares no Brasil ao longo da ditadura foi fortemente direcionado para o desmantelamento da oposição política organizada, diferente da Argentina, que testemunhou uma repressão mais generalizada por parte dos órgãos repressores. Talvez isso se explique pelo fato de que os mecanismos de controle e repressão às classes populares no Brasil sejam mais eficazes, por terem se estabelecido em momentos históricos anteriores ao período da ditadura iniciada em 1964. E que a ditadura estabelecida só tenha sistematizado com mais sofisticação um aparato repressivo já pré-existente, incorporando novas doutrinas e métodos. 

Sabemos que há um genocídio em curso no Brasil desde muito tempo antes dos militares tomarem o poder em 1964. É o genocídio de grande parte da população preta e parda desse país, que todos os dias é alvo da violência e do racismo estrutural por parte do Estado brasileiro, heranças do nosso passado escravocrata e da falta de políticas públicas pós fim oficial da escravidão, em 1888. Portanto, é possível dizer que a ditadura apenas expandiu esse ciclo de morte e violência perpetrado pelo Estado a outros grupos sociais anteriormente não atingidos, ou atingidos parcialmente por essa verdadeira máquina de moer que são as forças de segurança do nosso país. 

Hoje é preciso ratificar que, sim, os militares atuaram durante a ditadura como verdadeiros genocidas. Se pensarmos principalmente nos povos indígenas, sabemos que pelo menos 8500 indígenas foram mortos pelo Estado brasileiro no período de 1946 a 1988, conforme dados levantados pela Comissão Nacional da Verdade (CNV). Além disso, diversas comunidades indígenas também foram vítimas de gravíssimas violações aos direitos humanos, em circunstâncias ainda não totalmente esclarecidas. Infelizmente nenhum desses agentes do Estado respondeu pelas violações cometidas até o presente momento.

É difícil falar em genocídios do passado enquanto assistimos à barbárie que o governo Bolsonaro causa nesse exato momento. Seja por omissão no combate ao coronavírus, ou por ação deliberada por parte do presidente e de membros de seu governo, assistimos a mais um genocídio em curso em nosso país. Testemunhamos a perda de mais de 300 mil brasileiros. Viver no Brasil atualmente é carregar um fardo muito pesado nas costas. Nossa história é marcada pela violência e pelo autoritarismo, e por um ciclo genocida interminável. 

Nós, do Histórias Desobedientes Brasil, Somos herdeiros desses militares que tiveram atuação genocida. E queremos romper com esse ciclo. Por isso, desobedecemos!

FOTO: Erbs Jr./Agência O Globo

Publicado por Histórias Desobedientes Brasil

Coletivo Histórias Desobedientes Brasil. Familiares de repressores por Memória, Verdade e Justiça.

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